Bem, após 2 anos e meio de heróica resistencia, chuvas, rasgos, remendos, e não sendo lavada mais que 5 vezes nesse tempo todo, minha mochila finalmente peidou na mozenga. Depois de tudo isso, sucumbiu a um mero guarda chuva e rasgou o fundo. Triste. Nesses dois anos e meio, minha vida inteira mudou, a única coisa em comum esse tempo todo foi a mochila. Tenho ligações sentimentais com mochilas, a antecessora dela durou 3 anos. Ela então testemunhou tudo que aconteceu de importante na minha vida, tudo mesmo, até porque chegava a por ela vazia nas costas, só pra constar, me sentia pelado sem ela manja? Mas pelo menos seu último dia de vida útil foi o melhor. Como todo pessimista, sabia que não encontraria o Caio e o Nardi, mas algo me obrigava a ir embora de casa naquela quinta feira de feriado. Parti, todo alegre, com o discman, uma Tostines sabor brigadeiro, os documentos e umas coisas que esqueci de tirar dela antes de sair de casa, além do guarda chuva, que desde que comprei, só choveu uma vez: no dia que esqueci essa merda em casa. Obviamente, filho da puta nenhum apareceu na Tietê-Portuguesa e fui embora de cabeça baixa, vendo que a única coisa que podia dar certo no meu fim de semana foi pro escambau.
Restou então voltar pelo Trenzão de Jundiaí, o glorioso e temido percurso Luz-Jundiaí, pintado em marrom nos mapinhas do metrô, parando em Francisco Morato. Não preciso falar do meu tesão por São Paulo. Porque lá ninguém fica olhando pra ninguém, porque lá tem gente de todo tipo, porque, etc,etc. Mas todo caipira indaiatubaiano, geralmente um paulistano mané que por algum motivo se magoou com São Paulo e veio aqui transformar Indaiatuba no lixo que é hoje, adora pôr medo em quem vai pra São Paulo. Da linha A da CPTM então, nem se fala. Sempre ouvi que a pessoa que voltasse de lá viva, ou com o tenis e o celular seria um ser abençoado e privilegiado. Obviamente, o trem só continha gente de bem, ao contrário do "manos" sujos que povoam Indaiatuba. Deu pra ir ouvindo o discman o caminho inteiro, e magicamente o trem partiu assim que começou a tocar Machine Gun, Dai em diante, me senti numa novela de colônia italiana do Benedito Ruy Barbosa, cruzando as estações mais anacrônicas e mal conservadas, além dos matagais mais densos, tudo isso na conservada e moderna rede ferroviária brasileira. Quanto as favelas, não vi muita diferença entre Perus e a Morada do Sol não. Pensei "Se soubesse que era assim, viria antes". E após duas horas de Slowdive e Smashing Pumpkins, cheguei a Jundiaí. Aí a realidade me cobrou de volta. Reencontrei meus conterrâneos no ônibus pra Indaiatuba, aquela caipirada suja, farofeira e barulhenta. Teve dois que tiveram a moral de sacar uma MARMITA! ali mesmo, o que, unido ao cheiro do biscoito de polvilho, de salgadinho de cebola, de caipira suado, num ônibus sacolejando, passando pelas fazendinhas mais decadentes e isoladas, e por Itupeva, a 2ª pior cidade que vi na vida (a primeira foi Capivari), me mostraram o verdadeiro umbral. Quando lembrei que nessa hora o Caio e o Nardi estavam todos felizes dando rolê na Rua Augusta, então, quis puxar a saída de emergência e me jogar no Rio Quilombo. Enfim, de volta pra casa, não vou jogar minha mochila embora: vou dar ela um final de vida digno. Vou fazer algo que não fiz esse ano ainda: vou lavar ela, e deixar ela repousando, pra sempre, num canto do armário.
Frase da semana: "Mas Luiz, eu quero que você volte seguro pra casa, eu quero ver você de novo" (caralho, que há de errado em perambular da 1 às 5 da manhã num bairro onde nunca estive na vida?) "Então não vote no Serra, que em estado governado pelo PSDB, isso não existe."
Escrito por Luiz às 16:41
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
|