Quando disponíveis porei as fotos também
Domingo passado ou retrasado acordei após quase dormir na rua graças a um tecladista vacilão, olhei pro relógio, e vi 11 e 30. Aí caiu a ficha. "Puta que pariu, vou tocar hoje." Com aquele jeitinho emo que eu tenho, pulei da cama sorridente, já com a roupa com a qual ia tocar. Todo sujo, desgrenhado, com roupas velhas e esquisitinho, a 1h15 de casa. Sim, me sentia em turnê. Até agora a ficha não havia caído tão bem assim. Como sempre, eu me sentia culpado de não estar em casa nunca e ser um filho ausente que não vê a família há duas semanas. Sem falar que é sempre desagradável ficar na casa dos outros, aquele sentimento de estranho no ninho. Lá pras 3 da tarde, quando eu e o Caio conseguimos efetivamente acordar, fomos na casa do tal tecladista, aí caiu a ficha. Estavamos sentados nos amplificadores, com dezenas de cabos no chão, afinando os instrumentos, com, digamos, uma groupie assistindo. E ainda tinhamos uns 15 ingressos pra vender, do contrário ganharíamos o que a Luzia ganhou atrás da horta. Ao passo que eu e o vocal saímos para dar um fim neles antes que fosse tarde demais. Um segundo de história antes: Foram 2 anos pra achar todo mundo, só conseguir completar a banda em fevereiro desse ano, pra daí ensaiar displicentemente até do nada alguém aparecer e dizer: toca aqui daqui uma semana. Eu nem estava preocupado. Sabia que dali não se podia esperar grande coisa. Iamos tocar só para colegas, alguns deles que nem gostam desse tipo de coisa. É só musica nossa, ninguém conhece, então não tem como errar. Eu achava que esse ia ser o maior momento da minha vida, mas não estava ligando tanto assim. Eu estava mais preocupado com as roupas que estava vestindo que com se eu ia errar ou não. Quem estava eram os tais colegas. Uma amiga "quase-irmã" minha que teve a moral de vir de lá de Campinas até aqui pra ver uma porcaria igual a gente, nossas duas primeiras groupies, Forno e Alícia, todos eles fingindo estar super empolgados com a bagaça. Na verdade estavam, mas como sempre, mais pela amizade que pela música. Faltando uma hora, estavamos arrumando as coisas no palco, com o Adore do SP tocando de fundo. Escolheram a música certa pelo menos. Aí a ficha caiu, na verdade umas duas horas antes comecei a correr dum lado pro outro como se tivesse injetado estimulante pra cavalo, gritava ao invés de falar, fazia gestos espansivos. Comecei a sentir uma energia estranha. Era isso que eu sentia nas músicas que gostava. Aquele pulsar, aquela raiva, condensada nos movimentos que golpeiam os instrumentos. Era tudo, era tudo que deu errado até hoje, ali, nas mãos, prontas para socar os pratos até eles gritarem. Pouco me importava com o que quem estava vendo pensava então. Ali era eu, era um momento só meu. Eu não via nada, nem ninguém. Na verdade via. Uma só. Later we talk ´bout it. Quando o Moisés, bêbado e devidamente atrasado subiu no palco enfim, ví que isso ia ser um espetáculo de primeira grandeza. Ele tocava Roland, SLow Hands ou qualquer coisa do Interpol antes de TODAS as músicas, até perceber que a banda não iria junto. Comecei os primeiros toques da Intro, e dali pra frente não via mais nada, nem ninguém. Não lembro de nada, um espírito tomou conta ali. Eu não queria saber de nada, não me importava com errar, e o que foi mais fantástico foi isso. Foi honestamente um show no qual eu gostaria de estar na platéia. Porque de nada lembro. Quando lembro desses 45, 50 minutos, só me recordo da minha cabeça baixa olhando pra chapa de raio X que cobre minha caixa. Vez ou outra levantava a cabeça e estava ela ali olhando quase que só pra minha cara, quase que gargalhando, as vezes fazendo gestos pra eu sorrir de vez em quando. O tamanho diminuto do lugar contribuiu para uma intimidade excessiva ali. Literalmente conversar com o público, e no meio disso, quando achava que tudo acabou e agora vou pegar meus instrumentos e ir embora para casa, o fela da pota do Moisés toca 1979 SEM SABER TOCAR. As horas depois foram quase duma glória, uma glória momentânea. Achava que talvez nunca fosse descer dum palco e ganhar um abraço da garota que amava. Isso não levou nem um mês. Foi efêmero, mas foi. Os cumprimentos de todas pessoas, algumas quase ajoelhando nos meus pés. Nada importava. Ninguém ia mudar minha opinião se foi bom ou ruim. O que importava é o que eu fiz. Sei que isso não vai ser suficiente pra eu ser feliz, mas essa oportunidade fantástica de botar pra fora o que sinto que só a música me dá vai me manter vivo por muito tempo.
" Infinity of space, it destroys this special place Of momentary bliss, it's the thorn in a kiss" Serpent Sky, JJ72
ao som de: JJ72- Serpent Sky, Placebo - Allergic, e Keane - Isn´t Any Wonder
Escrito por Luiz às 11:24
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Formulae of Everyday
Pois é , o JJ72 acabou. Era uma das minhas bandas favoritas. Era uma banda de merda, diga-se de passagem. Instrumentistas fracos, nada de novo, mas eu amava. Sentia uma emoção abusrda naquilo. Me identificava. Com as letras, tipo o que eu fazia, a voz infantil do Mark, e acabou tão melancolicamente, com a banda e a gravadora sumindo do mapa, engavetando um terceiro disco tão bom ser ter dinheiro pra lançá-lo. Mark deve estar triste, e queria poder ajudar meu ídolo como em tantas vezes ele me ajudou. Enquanto o JJ72 morre, minha banda nasce. O primeiro show. Surgiu do nada. Pegou a gente de calça curta. É daqui uma semana. Meu, vai ser uma bosta. Mas e daí? Que primeiro show não é uma bosta? O mais impressionante não foi isso. Foi a reação de todos os colegas que passaram muito tempo ouvindo eu, ou meus colegas, falarem da banda. Se comportam como verdadeiros fãs. Mostram empolgação. Batem foto, perguntam como vai ser pra ir, como vai ser. Numa cidade em que ninguém gosta de indie, quanto mais de postpunk/dreampop. E agora, me sinto, se não celebridade, gente. Durante anos, me confortava de tudo que dava errado dizendo pra mim mesmo que ia compensar tudo isso com meu sonho. E hoje vejo que meu sonho é concreto. Existe. As pessoas podem gostar dessa merda. Eu não sei se vão gostar, mas podem. Sabe, por um lado é um peso muito grande nas costas. Tá todo mundo achando que a gente é uma puta banda quando somos 5 fraudes que nada tocam. Por outro lado, é legal ser gente, legal deixar de ser nada pra ser o baterista da Gray Strawberries. Uma menina daqui fez um negócio muito interessante. Eu chorei quando vi. No Orkut, tá minha foto criança. Achei ela e fiquei dias admirando, como eu era lindo. Gracioso. Era um menino gênio. Eu olhei e disse: "quero ser isso de novo". Mas não dava. Hoje sou um adolescente chutado de canto pra canto, tendo que virar adulto. Ela pegou essa foto e fez uma artezinha (http://www.orkut.com/AlbumZoom.aspx?uid=4519832795945274280&pid=1) . Botou na minha camisa dois moranguinhos cinza (sacou, o nome da banda?). Isso foi um sinal de como ela acreditava nisso. E eu me vi lá, lindo, inteligente, e com dois moranguinhos no peito. E parecia que aquele menino lindo ainda existia. Sei, é besta e emo. Mas depois de anos o que acredito ser apenas um devaneio que tinha antes de dormir, hoje é uma visão longe, distante, mas tá ali, no horizonte. E em cada banda que gosto, penso neles moleques, fracassados, e penso no que seriam deles se tivessem desistido. E eu não sei onde acabar. Mas acho que tudo vai acabar na Europa, no segundo disco, como o JJ72, mas com um menino na Eslováquia ou Honduras fazendo um texto sobre como o Luiz Freitas fez ele seguir em frente. Alguém tem o e-mail do Mark Greaney? Quero muito levar um papo com ele.
Escrito por Luiz às 03:11
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
|

|
|

 |
|